domingo, 13 de outubro de 2024

Chuva engraçada

Em Cabo Verde, a falta e a irregularidade das chuvas são abundantemente descritas em páginas da História do arquipélago, que igualmente dão conta das crises agrícolas e mortandades decorrentes desse fenômeno.

Mas quando chove razoavelmente, o arquipélago sofre uma grande metamorfose, não só na paisagem, que se torna verdejante, mas também na economia e na vida dos cabo-verdianos.

Daí que a queda da Chuva seja, em geral, tão alegremente recebida pelos cabo-verdianos, a ponto de a considerarem "Chuva Amiga", como escreveu Amilcar Cabral.

Acontece que a queda irregular das chuvas ocorre não só em termos de variação no tempo mas também no que tange à precipitação no espaço. Neste último quesito, a desigual distribuição espacial da Chuva  apresenta, por vezes, contornos engraçados.  

Exemplifico com um caso ocorrido comigo há muitos anos.

Certa vez, à porta da Farmácia Africana, com medicamentos recém-comprados na mão, esperava eu que deixasse de chover, a fim de passar para o outro lado da Avenida Amílcar Cabral, onde deveria apanhar o autocarro, rumo à Achada Santo António.

Nisto, uma moça, que se encontrava na paragem do autocarro, ao lado da então Casa D. Celina Vasconcelos, grita para mim:

-Hei, mos, ben pa li, txuba ka sta txobi li nau.

-Modi? - indaguei, incrédulo.

-Ben, mos! Ala otokaru ta ben!


Hesitei. Olhei para ela, que não estava encharcada, e, zás, corri para o outro lado, quase sem me molhar. Ela não tinha mentido: o outro lado da rua estava seco!

- N-ka fla-ba bo? - diz-me a miúda.

- Verdadi go, obrigadu! - respondo eu, com um largo sorriso de incredulidade.

Apanhei tranquilamente o autocarro e, sentado no lado esquerdo do veículo, pude apreciar esse fenómeno engraçado: chovia na metade da Avenida e a outra permanecia seca.

Praia, 13 de outubro de 2024.

Bartolomeu Varela 


domingo, 29 de setembro de 2024

Eu e a Igreja Católica de São Domingos

Na sequência do artigo "Eu e a Religião", publicado nesta página, há nove anos, retomo aqui algumas memórias relacionadas com a minha vivência cristã, com foco no meu relacionamento com a Igreja.

Nasci, cresci e me fiz homem em simbiose com a Igreja Católica de São Nicolau Tolentino, sita em Várzea da Igreja, São Domingos. Não me refiro à nova e imponente Igreja de São Domingos, recentemente inaugurada, mas à antiga e também linda igreja da minha infância e juventude.

      Antiga Igreja Católica de São Domingos

Aos 5 dias de idade, fui levado à Igreja para ser batizado na fé cristã, iniciando-se, assim, precocemente, o processo da minha formação e desenvolvimento como cristão. Obviamente, não podia estar ciente da opção feita pelos meus pais, que, entretanto, se apressaram em tornar-me cristão, a fim de evitar que eu morresse “mouro”, pois, como me contaram, logo após o nascimento, fiquei doente e receavam um desenlace fatal, apesar das constantes preces e do recurso às receitas da medicina tradicional, de que minha mãe era pródiga e com as quais salvou muitas vidas, incluindo as que se encontravam em risco por mor da feitiçaria, que teria sido o meu caso.

Seja como for, aos 7 anos, após as elucidações domésticas e a educação catequética, estava, precocemente, a par do que significavam, no essencial a fé e a condição cristãs, pelo que fiz, com entusiasmo, a minha Primeira Confissão, seguida da minha Primeira Comunhão, na Igreja Católica de São Domingos.

Aos 12 ou 13 anos recebi a Confirmação na Fé Cristã, através do Sacramento do Crisma, ministrado na Igreja Paroquial de São Domingos pelo então Bispo da Diocese, Dom José Filipe do Carmo Colaço.

Na verdade, o meu Sacramento do Crisma tem o seu quê de particular: como já possuía um nível de escolaridade que me permitia fazer a minha autopreparação para o exame de admissão ao Sacramento, fui incumbido de ser o formador das demais pessoas da minha aldeia, incluindo a minha mãe e pessoas mais idosas. Acabámos - formador e formandos - por ser crismados juntamente!

Afastada a possibilidade de ingressar no Seminário de São José, na Praia, no qual me apresentei em setembro 1966, sob o impulso do Padre Campos, nem por isso ficou desvanecida a minha forte participação na vida religiosa, que chegou a ser marcada, nomeadamente, pela participação diária nas missas matinais, na qualidade de acólito.

Na verdade, a Igreja Católica de São Domingos foi o locus do meu desenvolvimento espiritual e humano, conjuntamente com o Salão Paroquial, diligentemente edificado sob os auspícios do Padre António Figueira Pinto, com o contributo decisivo dos paroquianos, em especial de figuras de proa do laicado local, como Maria Alice, Ano Novo, Margarida Barros, Cecílio Correia (Morgado), António Denti d'Ooru, entre muitos outros, que assumiram o desafio de fundar o teatro em S. Domingos e organizar numerosos eventos culturais nas imediações da Igreja, logrando, deste modo, contribuir, com os fundos angariados, para o financiamento do Salão.

Nesses dois espaços, e até aos meus 20 anos, desempenhei ativamente diversas funções religiosas e socioreligiosas, como acólito e ajudante do Sacristão, membro dos grupos coral e de teatro, presidente da pré-JAC (Juventude Católica infantil), membro e secretário da Legião de Maria, catequista, escuteiro, etc., culminando, aos 22 anos de idade, com o primeiro casamento.

A partir dos 22 anos, deixei de residir permanentemente em São Domingos, o que fez mudar radicalmente a minha relação com a Igreja do meu torrão natal, que também mudou, passando a ser um património religioso valioso e de grande centralidade no panorama local.

      A centralidade da nova Igreja Católica de São Domingos


      Imagem da nova Igreja Católica de São Domingos


       Imagem de uma procissão em direção â nova Igreja

Efetivamente, com a mudança da minha residência habitual de São Domingos para a Vila de Nova Sintra, na Brava (outubro de 1976) e, sucessivamente, para as cidades da Praia (setembro de 1979), de S. Filipe do Fogo (setembro de 1981) e, novamente para a capital, a partir de 1984, mantive uma relação menos frequente com a Igreja Católica, em particular com a de S. Domingos, o locus da minha iniciação cristã e do meu posterior desenvolvimento na fé católica.  

Passei a ser um cristão e católico menos ritualista, mas de sólidas convicções religiosas, empenhado, sobretudo, em colocar em prática as premissas essenciais da religião católica, que se assentam na prática do Bem e no cultivo do Amor a Deus e ao Próximo.

Evito entrar em polémicas sobre questões relativamente às quais a Igreja não parece estar preparada e que, por isso mesmo, são passíveis de provocar fraturas no tecido religioso, como: o celibato do sacerdote como opção e não como imperativo absoluto; a possibilidade de ordenação sacerdotal de mulheres; a regulação das condições em que é admitido o divórcio em casamentos religiosos; a redução de rituais, nomeadamente os que são desnecessariamente repetitivos; a eliminação ou redução de práticas de  excessiva veneração de santo/as (abeirando-se  do seu endeusamento), amiúde em detrimento da oração e veneração ao próprio Deus.

Considero, por exemplo, que é salutar ir às missas e participar nas atividades que lhes conferem sentido religioso, à luz da fé e da doutrina católicas, mas entendo que mais importante que ir à missa é o cultivo da Palavra de Deus, em especial dos já referidos valores do Bem e do Amor, que verdadeiramente sintetizam a essência divina. 

Praia, setembro de 2024

Bartolomeu Lopes Varela 

domingo, 4 de agosto de 2024

O Namoro na minha Infância

Criado e educado, como muitos da minha geração, em ambiente familiar e social marcado por sólidos princípios da moral  e religião católicas,  de acordo os quais a relação sexual antes do matrimónio constituía um pecado grave, o namoro casto não era proibido, mas tolerado ou apoiado pelos padres e catequistas, pelos pais e pelos mais velhos.

Por namoro casto entendia-se uma relação de afeto em que rapazes e moças não deviam ter relações sexuais antes do casamento, pelo que, em regra, devia acontecer sem demasiada intimidade física. 

Assim, o namoro entre miúdos iniciava-se com troca de cartas, bilhetes, flores, pequenas prendas, olhares ternos ou piscar de olhos, neste caso, sobretudo por moços mais afoitos.


Entre adolescentes e jovens, admitia-se alguma aproximação física entre os namorados, mas o namoro teria de acontecer com o necessário pudor e respeito para com terceiros, admitindo-se, entretanto, inocentes e púdicas trocas de carinho, como passear lado a lado, furtar rapidamente um beijinho, ficar por instantes de mãos dadas e pouco mais, pois, como acontecia quase sempre, havia por perto uma pessoa adulta encarregada de vigiar essa convivência, de modo a não passar dos limites de pudor permitidos.

- Ntoni, tra mon di Lurdes! - ordenava Nha Txika, com autoridade!

É claro que se verificavam desvios à norma, desde namoros ostensivos, com beijos e  carícias em público, a propalados ou especulados casos de ato sexual, sem falar de um ou outro episódio de alegado rapto de miúdas.

- Fladu ma Djoka dja tra Joana di kaza!  - informa-me o Zeka.

Mas conseguir o amor das miúdas nem sempre era fácil, pois elas receavam apanhar umas  bofetadas ou chicotadas dos pais, caso anuíssem à conquista. Outrossim, os pretendentes tinham de ser bons "partidos": não bastava serem bonitos e vestirem-se bem, mas deviam ter "condições" para assumir responsabilidades futuras: terem escola, serem sérios, trabalhadores e ou filhos de boa família.

- Kuze ki bu odja na kel pe rapadu la ki ka ten undi kai mortu? - interrogava Nho Juka à sua filha Nhota.

Além disso, a arte da conquista tinha de ser bem aprendida pelos pretendentes, a fim de lograrem o "sim certo" da pretendida. Senão era um desastre, um "não claro", como aconteceu com o Kaka di Beba.

- Oh, minina, ami n-krebu txeu sima porku na lama. Ranja ku mi!

- Nau! Bai t'imbora, mos! Já ki bo e porku bai djobi n-otu kau, pamodi mi  n-ka lama. 

Melhor sorte tinham os que levavam para a conquista mui bem estudada lição, como o Romeu, emigrante em Holanda, de férias em Cabo Verde:

- Minina Julinha, dexa-m abri ku bo. Ora ki n-odjabu, mais linda ki prinseza di Holanda, nha  korason ta bati forti i nha alma ta xinti sima ki n-sta na Céu. Si bu ranja ku mi, n-ta faze-bu nha rainha.

- Djan krebu-bu sima Julieta kreba Romeu - responde-lhe Julinha, que tinha uma boa quarta classe e gostava de ler romances.

O repositório das formas de conquistar as miúdas da minha infância é vasto, desde o simples lançar de olhares à dedicação de poemas e canções, passando pela aprendizagem de inúmeras frases alegadamente infalíveis.

Mas para se chegar ao coração da pessoa amada nem sempre era preciso ou suficiente fazer uso desse ritual da conquista. 

Cada miúda reagia de modo diverso às conquistas dos pretendentes e, por vezes, de forma mais ou menos discreta, elas tomavam a iniciativa, através de bilhetinhos ou recados que enviam, por portador seguro, aos eleitos dos seus corações.

Mas o que era socialmente apoiado sem rebuço era o namoro sério, com pedido de casamento. Na minha infância, ainda persistia o ritual do pedido de casamento feito aos pais da miúda por pais ou representantes da família do moço. 

O tempo passa e, com ele, mudam as formas e os rituais de conquista, de compromisso e namoro. O tempo da minha infância difere do atual e não ouso dizer qual o melhor. Afinal, namorei outrora e namoro hoje. Mas, ainda assim, não seria mau trazer para o namoro dos tempos atuais o que o namoro da minha infância tinha de sobra: pudor, recato, respeito!

Praia, 4 de agosto de 2024

Bartolomeu Varela 

 


 






sábado, 3 de agosto de 2024

Uma história de Nota 20 em Português

Na Escola de Habilitação de Professores de Cabo Verde, em Variante, São Domingos, a professora D. Catarina Cunha, devolve aos alunos-mestres, devidamente corrigidas, as provas de Língua Portuguesa que aqueles tinham realizado na semana transacta.

Chegada a vez do aluno Goiaba (nome fictício), este lança um olhar para o canto superior da sua prova. Com o semblante de incontida alegria, pula de contente e, como se não bastasse, dirigindo-se para a turma, que o observa, com curiosidade, grita:

-Dja-m rabenta ku Katrina!!! (Tradução: Já arrebentei com a Catarina).

Olhando para mim (o melhor aluno da turma), pergunta:

-"6", kuantu bu tira? (Tradução: quanto tiveste?)

Cabe esclarecer que o meu número de aluno era "6" e, com frequência, era pelos respetivos números que os alunos-mestres se dirigiam uns aos outros.

-18, respondo e, curioso, indago: I bo? (Tradução: E tu?)

-20! Mi é mais bon ki bo! (Tradução: Eu sou melhor que tu!).

Nisto, o chefe da turma, Penedo (nome fictício), que se aproxima do Goiaba, toma-lhe a prova e, ao ver a classificação, diz, em voz alta e audível para toda a turma:

-0,20 valores!!! Asno!!! Nen bu ka sabi le numerus. (Tradução: Nem sabes ler números).

-Ah,ah,ah! - reage a turma com uma estrondosa e infindável gargalhada, enquanto a professora, que não compreende o Crioulo, olha para todos, entre divertida e curiosa.

Cabisbaixo, o Goiaba foi sentar-se, ciente de que passou de "o melhor" para o "pior" da turma.

No fim da aula, o chefe da turma, a pedido da professora, explicou a esta o que se tinha passado.

Pude ver no semblante da D. Catarina um misto de surpresa e discreto gozo.

Praia, 3 de agosto de 2024

Bartolomeu Varela 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Eu e a música!


Nasci com a música nos ouvidos! Não me refiro apenas às canções de ninar, tradicionais ou improvisadas, com que a minha mãe me mimoseava, e que eu, já rapaz de cinco ou seis anos de idade, ainda dela reclamava, pois me faziam tão bem!

Refiro-me também à música que provinha da natureza, com o cantar do galo, o cacarejar das galinhas, o piar dos pintainhos, o chilrear dos pássaros, o zurrar dos burros, o relinchar dos cavalos, etc.

Bem, nem todos os sons que vinham da natureza se me apresentavam como música: nos primeiros anos, tinha eu um pavor enorme das trovoadas que pareciam ser vozes de coléricos deuses e cujos efeitos tenebrosos procurávamos evitar, lá em casa, rezando à “Santa Bárbara, a generosa”, ao Deus Todo-Poderoso, ao “Santo António, o milagreiro”, e a outros santos, tal como nos ensinava a Djodjó, minha mãe! Mas, com o tempo, habituei-me a esses estrondos que vinham do céu, os quais passavam a soar aos meus ouvidos como primorosos fragmentos musicais. Daí até imitá-los foi um passo, resultando estranhas e contrastantes melodias, que a minha medrosa mãe reprovava, benzendo-se, ao mesmo tempo que me ameaçava com umas tapas!

O interesse pela música, nos primeiros anos, levou-me a realizar inúmeras experiências musicais arcaicas, com flautas, violões e tambores construídos a partir dos mais incríveis materiais locais. A título de exemplo, minha primeira flauta foi feita de pedaço de caniço e de teia de aranha! Meu primeiro rádio foi uma caixa de fósforos vazia, com pequenos buracos, dentro da qual eu colocava um inseto denominado “fonfom”, que emitia uma "música" algo furiosa, certamente devido à vontade que o prisioneiro tinha de se libertar. Enfim, um misto de pequena doce maldade!

Entretanto, a minha atração pela música foi evoluindo, passando a integrar, depois de alguns testes, o grupo coral da Igreja de São Domingos (Santiago), que atuava nas missas dominicais e ou festivas, e o grupo cultural de Bom Jardim, que cultivava a música, o teatro e a dança, sob a sábia direção de Ano Nobo, de seu nome próprio Fulgêncio. Este homem de cultura, que se destacou como músico e compositor de grande talento, mas que também era um poeta e dramaturgo de se tirar o chapéu, além de professor primário pro bono e instrutor de largas dezenas de adolescentes e jovens de São Domingos, entre os quais eu próprio, na arte musical e nas bases e técnicas da orquestração, com destaque para o violão, o cavaquinho e o violino.

O violão foi a minha preferência e, para a sua aprendizagem básica, servia-me de instrumentos que o próprio Ano Novo me emprestava, por longas semanas! Quando, aos 19 anos de idade, adquiri, na ilha da Brava, o meu primeiro violão, começou uma fase de dedicação mais regular ao treino com este instrumento, aproveitando as horas de ócio que se sucediam às horas de trabalho como professor, diretor de escola e delegado escolar. Regressado à ilha de Santiago e a S. Domingos, participei, com o meu violão, em vários ensaios e atuações, em meios profanos e religiosos, tendo por mestres o Ano Novo e o Padre Firmino.

Cheguei a ser o baixista do conjunto musical eletrónico “Os Camponeses”, de que faziam ainda parte, entre outros, o Nonó (saxofone, flauta, clarinete), o Lindorfo (viola solo), o Emanuel (viola ritmo), o Frank (percussão e voz) e o Fifi (voz), além de compositor de algumas canções, uma das quais era uma homenagem a Amílcar Cabral, que o Fifi interpretava soberbamente: “Pa tudo kau si nome corri/ Nós Amílcar ka ta morri/Del ninguém ka ta esquecê…”

Porém, as lides profissionais e académicas afastaram-me, quase completamente e por longos anos, da produção e da atividade musical. Poucas vezes toco ao violão, mas, quando o faço, ainda que sem a mestria de meus antigos colegas de tocatina, sinto-me transportado para uma espécie de quinta-essência, para um mundo algo paradisíaco, que vale a pena viver!

Em casa, continua à minha espera, ao canto de uma das salas, um amigo que chora e canta fantasticamente ao contacto com os meus longos dedos. Refiro-me ao meu atual violão, adquirido, em 2010, na cidade de Braga. Prometo reconciliar-me contigo, meu amigo, para fazer ressurgir, ainda que só para mim, o meu outro lado, sumamente reprimido, mas à espera de se soltar, com a inspiração das musas, sejam estas as nove filhas de Zeus e Mnemosine, sejam elas outras, mais terrenas, que as há!

Praia, Agosto de 2015.
Bartolomeu Varela

domingo, 31 de maio de 2015

Eu e a Religião!



Minha infância e adolescência foram profundamente influenciadas pelos valores da educação religiosa, aprendidos e postos em prática no ambiente familiar, na catequese, nas missas e nas diversas estruturas e da Igreja Católica, ao tempo existentes, sobretudo em São Domingos, Ilha de Santiago, meu torrão natal.

Tendo aprendido na família os rudimentos da religião e as primeiras orações, desde que me lembre, seguia, invariavelmente, o mesmo ritual que consistia em iniciar o dia com o "sinal da cruz" e uma breve oração, a que seguiam, à laia de cumprimentos, os pedidos de bênção aos meus pais, que mos concediam piedosamente:
- Deus te dê juízo e te acompanhe! - dizia, por vezes, o papá;
- Deus te  abençoe e te guarde!  - dizia, outras vezes, a Djodjó, minha mãe.

À mesa, antes de iniciarmos as refeições, era também hábito, lá em casa, uma breve prece, em que o pai ou a mãe agradecia a Deus e Lhe pedia que abençoasse os alimentos que iam ser servidos.

À noite, momentos antes de me recolher, em geral mais cedo do que os pais, fazia uma breve oração e, em seguida, desejava boa noite aos país, que correspondiam, acrescentando:
- Anjo da tua guarda te acompanhe!
- Deus te ilumine o caminho e te ajude !

Minha irmã, a Branca, mais nova, seguia na família os mesmos rituais e, tal como eu, aprendia os valores do amor a Deus e ao próximo, do respeito aos pais e aos mais velhos, da verdade e da bondade, etc.

O aprofundamento dos conhecimentos religiosos tinha lugar na catequese, a cargo de catequistas, normalmente pessoas que tinham frequentado a instrução primária e possuíam conhecimentos básicos da doutrina cristã, das diversas orações e dos rituais e valores católicos, que nos transmitiam com mestria, muita paciência, ainda que, por vezes, com o auxílio de alguns castigos físicos, ao estilo da educação tradicional.

A catequese preparou-me para participar adequadamente nas missas de domingo e, em particular, para receber os meus primeiros sacramentos - a confissão e a comunhão -, o que aconteceu na Igreja de São Domingos, quando
Igreja de São Domingos
tinha sete anos! Lembro-me bem  de ter ido à missa da primeira comunhão trajado de branco, como os demais colegas: calças compridas, camisa de mangas longas e sandálias brancas em plástico, estas últimas tão em voga na altura, sobretudo no seio das gentes mais humildes!

Após o sacramento do Crisma, e tendo já feito a 4ª classe do ensino primário, idealizei ser sacerdote, tendo, para o efeito, projetado continuar os estudos no Seminário de São José, na Praia! Meu Deus, como eu admirava os pequenos seminaristas de São Domingos, como o Isidoro e o Iate, quando, nas suas férias, tomavam parte nas missas de domingo, vestidos de fato e aparentando um ar celestial que os tornavam, aos meus olhos, seres especiais, mais próximos de Deus! Cheguei a apresentar-me no Seminário de São José para iniciar a formação, mas tive de desistir desse intento, admitindo, desde logo, que havia outras formas de me realizar como cristão e católico!
   
Assim, e porque ia evoluindo nos estudos, como aluno aplicado, a partir dos doze anos, fui incumbido de sucessivas responsabilidades na Igreja, como as de acólito (a quem incumbia assistir os padres no ofício da missa), ajudante de sacristão (função desempenhada durante largos anos pelo Pereira, também professor da escola paroquial), leitor das Escrituras, membro e presidente da Pré-JAC (uma espécie de "organização de pioneiros" da Juventude Católica), membro da Legião de Maria, catequista, membro e presidente da Juventude Católica, tendo, outrossim, participado em outras atividades organizadas no âmbito da Igreja, como as do grupo Coral, do grupo de Teatro e do primeiro Agrupamento Escutista de Cabo Verde, que contribuíram, de forma marcante, para a inovação da vida religiosa em São Domingos! Cabe, neste particular, salientar o papel de relevo desempenhado pelo Padre Firmino e por outras figuras da cultura, em São Domingos, como o Ano Novo e a Maria Alice! Graças a eles, a Igreja tornou-se mais jovem, mais alegre, mais atrativa e mais dinâmica! 

Não é propósito deste post entrar em detalhe sobre o meu percurso religioso (talvez volte ao assunto em outro momento). Resumindo esse percurso, um pouco antes do meu primeiro casamento, quando tinha apenas 21 anos, era já em mim forte a convicção de que, mais do que a observância formal das prescrições e dos rituais religiosos, o mais importante e mais difícil é assumir e pôr em prática, de forma consciente e consequente, os princípios e valores essenciais da religião e da moral religiosas, que podem resumir-se no Amor e na Fraternidade e no Cultivo do Bem. Na verdade, que(m) é Deus senão a expressão suprema do Amor e do Bem?

Enfim, tais valores, que aprendi no berço familiar e se consolidaram nas atividades da Igreja, continuaram, ao longo dos anos, e até ao momento (em que sou, assumidamente, menos ritualista), a servir de referência na minha postura perante a vida, tanto nos planos pessoal e familiar como nos da vida cívica, profissional e social.

domingo, 28 de junho de 2009

O meu primeiro dia de aulas na Escola da Variante


Fiz parte do primeiro contingente de mais de oitenta alunos, repartidos por ambos os sexos, que, após aprovação numas concorridíssimas provas de aptidão, inauguraram, no ano lectivo 1969/70, a Escola de Habilitação de Professores, sita em Variante, São Domingos, tendo por Director o professor António Ribeiro da Cunha, que se revelaria famoso, quer pela sua sólida e vasta formação (“Ele sabe tudo”! – dizíamos, apreciando a forma como ele versava connosco os mais diversos assuntos, com mestria e à-vontade e, sobretudo, com uma grande capacidade comunicativa), quer pelo seu exacerbado e implacável autoritarismo (“O menino fica em causa por quinze dias”! – dizia ele, calmamente, a um dado aluno que, por exemplo, retirasse do bananal da escola uma banana madura para saciar a fome).

O autor, ladeado de alguns dos antigos colegas da EHP






Mas, antes de entrarmos na Escola da Variante, eu e os meus colegas desconhecíamos estas características do Director Cunha, sobretudo a segunda. Foi no primeiro dia de aulas que me dei conta dos evidentes sinais de autoritarismo do Director quando ele, numa espécie de sessão de boas-vindas, se reuniu com a minha turma, a dos rapazes (Sim, os “alunos-mestres” estavam distribuídos por duas turmas, em função dos sexos, e raramente ambas as turmas se encontravam em aulas conjuntas). As regras e as advertências enunciadas pelo Director fizeram com que eu e os meus colegas, logo ao primeiro contacto, ficássemos com um receio enorme daquele homem, que, entretanto, e apesar de tudo, viria a marcar, positivamente, a nossa formação e as nossas vidas.

À primeira sessão, de introdução geral ao curso, seguiu-se a primeira experiência de trabalho "extra-escolar" (que iria multiplicar-se ao longo dos quatro anos de um curso que funcionava em regime de semi-internato, com oito horas diárias de aulas e não poucas horas de trabalhos rurais, de arborização, horticultura, etc, a cargo, sobretudo, dos rapazes, pois as meninas ocupavam-se dos chamados “lavores femininos”). Por ordem do Director, procedemos, naquele dias, à remoção dos calhaus que se encontravam ao longo do troço da estrada que ligava a estrada de Milho Branco à Escola de Habilitação de Professores.

Soubemos que, seguidamente a essa actividade laboral, não haveria aula, ou seja, teríamos uma folga. E o meu amigo e colega de peito, Zé-Maria, que não suportava ficar muito tempo sem comer, teve, logo, uma ideia brilhante:
- Vamos ao Milho Branco comprar doce de coco de Nha Doca!
- Mas, e a aula? Podemos chegar atrasados!
- Qual história, temos folga e é só uns instantes!
Acedi. Os doces de coco de Nha Doca eram, de facto, muito gostosos, tendo aliviado a nossa fome de rapazes do interior de Santiago, habituados a comer bem!
Não nos demorámos muito, mas, quando regressámos à Escola, qual não foi nosso espanto quando não vimos vivalma no pátio de recreio. Soubemos pelo Contínuo, o Binda, que o Director se encontrava novamente reunido com a turma dos rapazes! Ficámos arrepiados, de tanto medo. O sabor dos doces de coco tornou-se amargo.
- Entramos ou não entramos na sala? – perguntei ao Zé-Maria, que hesitava, tanto quanto eu.
A conselho do Binda, que nos ouvia e nos olhava com um ar simultaneamente brejeiro e misterioso, lá nos decidimos. E batemos à porta, abrindo-a, acto seguido:
-Dá licença, Sr. Director? – perguntei.
-Onde estavam os meninos?
- Fomos até ao Milho Branco comprar doces….
Ouviram-se gargalhadas galhofeiras dos colegas da turma.
- O quê?!
- Nós estávamos com fome e…
- O quê?!
- Nós estávamos com fome e, como não tínhamos aula, fomos ao Milho Branco, para comprar…
- O quê?!
-… Doce de coco!...
Novas gargalhadas interromperam-me, seguidas da pergunta do furibundo Director:
- O quê?!
Eu, desesperado, sem saber como explicar ao exasperado Director o que se tinha passado, e talvez duvidando que o meu português tivesse sido eloquente, atirei com a seguinte resposta, sem me dar conta de que me expressava em puro crioulo cabo-verdiano:
- Sr. Director nu staba cu fómi e pamódi nu ca tinha aula, nu bá cumpra dóci de coco na Midjo Brancu!

Ouviu-se da turma uma estrondosa e interminável gargalhada, a que se seguiu um pesado silêncio.
O Director, que nos olhava com um ar terrível, quis balbuciar uma frase, que não chegou a sair-lhe da boca.
Enquanto isso, eu e o Zé-Maria permanecíamos à porta da sala, à espera da sentença.
-Vamos ser expulsos da Escola! - cochicha-me o Zé-Maria!
Confesso que, lá no meu íntimo, eu esperava isso mesmo do furibundo Director!
- Vão sentar-se! – explode ele, por fim.
Sentámo-nos, humilhados e destroçados, à espera de alguma ordem de expulsão ou, sei lá, de fuzilamento, mas nada disso aconteceu, tendo o Director, já refeito do choque, retomado a aula que havíamos interrompido. Não entendi nada do que ele dizia, e o mesmo aconteceu com o meu colega de infortúnio, Zé-Maria, como este me diria, mais tarde.

Mas esse dia, marcado pelo vexame decorrente do facto de falar crioulo numa aula de português dum curso de formação de professores, ficou para sempre gravado na minha memória.

domingo, 12 de abril de 2009

Os pecados da minha meninice


- Quem foi que comeu todo o açúcar que tinha guardado aqui? – pergunta minha mãe Eduarda, a quem eu chamava Djodjô, contrariamente à minha irmã, a Branca, que lhe chamava mamã -, enquanto, com ar sério, aponta para a caneca de litro vazia.
- Eu não, mamã! – responde, rapidamente, minha irmãzinha, com firmeza.
- Eu também, não, Djodjo! – respondo eu, procurando parecer convincente.
- Olhem que é feio e é pecado mentir, além de que constitui outro pecado apossar-nos de coisa que não é nossa! Isso é furtar, é pecado!

Deus e o diabo - o conforto de que Ele é que vence!
A esta palavra, que me fazia pensar num Deus descontente, a contrastar com um Diabo que esfregava as mãos de contente face à expectativa de encontrar companhia no fogo do Inferno, para onde ia condenado quem vivesse e morresse em pecado, eu não tive outro remédio senão confessar, procurando não chorar antes do tempo:
- Fui eu, Djodjô! Desculpa-me!
- Bem, desta vez passa, mas não volta a acontecer, certo?
Anuí, humilhado.

Cenas destas repetiam-se com frequência, tendo por objectos de furto as mais diversas guloseimas ou coisas resguardadas do uso desregrado ou não autorizado: açúcar da terra, mel, queijo, mancara, carne assada, torresmos, linguiça, chouriço, doces, etc, etc.

Mas não eram poucas as situações em que a Djodjô e o papá nem sequer se davam conta dos “estragos”, digo, dos “furtos” que fazíamos (eu, com mais frequência, e a minha irmã, uma vez ou outra, mas quase sempre cúmplice das minhas “incursões”), pois, precavidos, tirávamos, de cada vez, pequenas quantidades que não nos denunciavam facilmente, a não ser após várias reincidências.

Mas se a Djodjô e o pai não davam conta desses “furtos”, já Deus não os ignorava.
- Deus vê tudo, sabe tudo! – assim nos lembravam em casa, na vizinhança, na Catequese, nas Missas dominicais...

E, por isso, os muitos pecadilhos da minha meninice eram confessados, sistematicamente, aos meus confessores. Os meus colegas, tal como me diziam, faziam o mesmo. Não podíamos permanecer em pecado!
- Padre, eu pequei!
- Em que pecaste?
- Furtei açúcar de terra em casa…
-Estás arrependido?
- Sim, padre!
E vinham as absolvições, condicionadas pela observância imediata das penitências habituais, como, por exemplo, rezar um Pai-nosso, uma Ave-Maria, um Glória ao Pai… Ficava com a consciência tranquila, leve!

E, depois, tudo se repetia: as mesmas transgressões eram feitas, confessadas e objecto de penitências, ficando, tacitamente, assumido que bastava a “absolvição” para que ficassem apagados os “pecados” e o pequeno pecador “livre” para voltar a “pecar”, contanto que o "novo" pecado seja outra vez confessado.

Mas os pecados da minha meninice eram mais que muitos: dizer “palavrões” como “chissa” (chatice), “mentira”, “mentiroso”, “bu mai” (“tua mãe”) – tudo isso eram pecados que deveriam ser confessados.

O mesmo se passava com os furtos de coisas pertencentes a pessoas fora da família: uma laranja, um mango, um pedaço de cana-de-açúcar, etc., para mitigar a fome durante as idas e vindas de e para a escola…

Eram pecados que podiam levar ao "fogo do Inferno" se não fossem confessados. É certo que os padres recomendavam o arrependimento, mas, na prática, pouco interessava se os prevaricadores voltavam a reincidir: estando os pecados perdoados por quem representa Deus na Terra, isso bastava.

Hoje em dia, meus filhos, assim como os do estimado leitor destas linhas, não são instados a levar tão a sério como outrora uma série de transgressões a normas de convivência social.

Nem mesmo os sacerdotes são tão rigorosos como outrora na classificação de certos comportamentos como pecados…

E fico a cogitar comigo se não faz falta um “meio-termo”: nem tanto a mar nem tanto à terra. Há comportamentos – chame-se-lhes pecados, transgressões ou ilícitos – que, por violarem normas importantes de convivência social (para não incluir as práticas violadoras de leis e regulamentos adoptados pelos Estados), devem ser objecto de uma reflexão crítica entre pais e filhos, educadores e educandos, sacerdotes e leigos, nos diversos fóruns (mass media, palestras, conferências, ateliers), enfim, nos diversos contextos socio-educacionais, de natureza formal ou informal, induzindo as crianças e os jovens a assumir, conscientemente, posturas mais edificantes e construtivas.

Se tal acontecer, dar-se-á um passo importante na senda da educação moral e cívica, da formação pessoal e social, da educação para cidadania ou para valores, aspectos que nem sempre são tratados de forma adequada pelas instituições educativas.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Eu, deputado!



De 1981 a 1990, fui deputado ao parlamento cabo-verdiano, então denominado Assembleia Nacional Popular, o qual, a partir de 1991, ficou amputado da “perna”, digo, do termo Popular, passando a chamar-se, simplesmente, Assembleia Nacional. Dei o benefício da dúvida aos parlamentares que tomaram essa decisão: efectivamente, o termo Nacional (por abarcar todos quantos assumem a identidade cabo-verdiana, nas suas diversas dimensões (psicossociológica, antropológica, cultural, etc.) já abarca o Popular, e este, ainda que associado ao Nacional, pode afigurar-se restritivo, parecendo alinhar com a polémica concepção de democracia nacional revolucionária, presente nos discursos, que não na prática consequente, de então.

Desempenhei as funções de deputado num período de intensa vivência cívica, porventura mais do que de actividade político-partidária, apesar de, nesse período, ter desempenhado cargos dirigentes no partido que detinha a condição jurídico-constitucional de força política dirigente da sociedade e do Estado: o PAICV.
Palácio da Assembleia Nacional (Popular)

Estou certo que ninguém, inclusivamente os que, tendo estado, então, comigo nas lides parlamentares, viriam a passar para a outra força política emergente em 1990 (MpD), após a abertura política – abertura que, eu, em Fevereiro desse ano, enquanto porta-voz do Conselho Nacional do PAICV, tive o privilégio de anunciar, em primeira-mão, ao país, através da imprensa –, dizia eu, ninguém contestará o facto de que, como vários, exerci as minhas funções de deputado com “independência de pensamento e de acção” e elevado sentido de comprometimento com a causa do progresso do povo cabo-verdiano, sem me deixar tolher por interesses estritamente partidários, como se tornou curial desde o início da década de noventa do século passado!

Tendo integrado, de 1981 a 1985, a Comissão Especializada Permanente dos Assuntos Constitucionais e Jurídicos, na qualidade de Secretário, já nos cinco anos seguintes, coube-me a presidência da mesma Comissão, cargo que aceitei não sem alguma resistência, posto que, na altura, ainda não era Jurista, ao passo que havia, na Comissão, dois juristas, que assumiram as funções de Vice-Presidente e Relator (Carlos Veiga e Aristides Lima, respectivamente). Na verdade, não fosse o incentivo dos dois juristas que, iniciando-se, na altura (ou seja em 1985), na actividade parlamentar, entendiam que eu era a pessoa mais indicada para o cargo, dada a minha experiência parlamentar, não o teria aceite. De todo o modo, a aceitação do cargo levou-me a tomar outra decisão: inscrever-me numa licenciatura em Direito, como aluno externo, da Universidade de Havana. A CEPACJ teve um papel central na dinamização da actividade legislativa e do controlo político da acção governativa, contribuindo, nomeadamente, para uma discussão aprofundada dos diplomas legais submetidos ao Parlamento ou sujeitos à ratificação deste.

Foram notas marcantes da minha passagem pelo Parlamento: o reforço da representatividade popular da Assembleia, com a entrada de cidadãos que não tinham o estatuto de “Combatente das Matas da Guiné” nem de alto dirigente do Estado; a afirmação do pluralismo de ideias no parlamento, com a tomada de decisões nem sempre concordantes com as da cúpula dirigente do Partido e do Governo; a forte assunção do mandato popular, com a colocação sistemática ao Governo das questões que afectavam as populações; a afirmação da função de controlo da actividade executiva e legislativa do Governo, com a alteração ou mesmo a recusa de ratificação de alguns diplomas governamentais; a liberalização da economia e a introdução de reformas relevantes nos domínios da educação, da saúde, do associativismo, da imprensa, etc.; o contributo para a democratização do regime e a preparação das condições jurídico-constitucionais e do ambiente político adequados à consagração do multipartidarismo em Cabo Verde, etc.

Debatendo-se, obviamente, com contradições internas, decorrentes, nomeadamente, da própria natureza de regime de partido único com ideais democráticos, o parlamento de então procurava assumir a centralidade da vida política nacional, com autonomia e identidade própria, o que não deixou de surpreender os países amigos, do ocidente ao oriente, do norte ao sul. Lembro-me de algumas reportagens saídas em jornais portugueses, que davam à estampa a constatação de que, em Cabo Verde, os deputados não eram meros “yes, man”, mas parlamentares que não se assumiam como meras caixas de ressonância do Governo, ainda que não se assumissem, a priori, contra as propostas governamentais, viabilizando-as na medida da sua pertinência e relevância para o país.

Bem, termino esta nota não sem antes manifestar o desejo de, um dia, termos em Cabo Verde um Parlamento com identidade própria e que não funcione apenas na lógica “do bom e do vilão”: tudo o que parte da “situação” (governo e partido que o suporta) é mau para a oposição, assim como o é também tudo quando parta da oposição, independentemente da bondade ou mesmo da cientificidade da proposta em debate.
Em verdade, em verdade vos digo: mal vai o Grupo Parlamentar que, em questões essenciais da vida nacional, forma a sua convicção ou vontade política apenas no sentido de contrariar a vontade do seu potencial adversário na luta pelo Poder, sem ter em conta as virtualidades da iniciativa, proposta ou ideia em discussão!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Eu e a Política



A minha relação com a Política foi inicialmente caracterizada pelo receio e um certo medo. Ainda garoto, com os meus seis anos, ouvia falar de Políticos como sendo de gente conflituosa, de tal sorte que apelidar uma pessoa de político era quase o mesmo que insultá-la.
Amílcar Cabral
Quando tinha cerca de doze anos, em círculos de amigos da minha idade e, mesmo, de adultos, ouvi falar de Amílcar Cabral, através de uma série de histórias lendárias, em que ele, classificado de político subversivo e "contra a Nação" (leia-se contra a Pátria portuguesa), conseguia, alegadamente, ludibriar a polícia secreta portuguesa (a PIDE), saindo, magicamente, de alegadas ciladas que lhe montavam quando aparecia em vários pontos da Ilha de Santiago, vindo da Guiné, para visitar parentes, combatentes... Nessas lendas, que na altura nos pareciam ser histórias verídicas e incontestáveis, Cabral aparecia para nós como um herói mágico que tinha a arte de enganar os "tugas". Essas conversas, em sussurro algo conspiratório, eram suspensas bruscamente, com a mudança improvisada de assunto, à passagem de alguma pessoa considerada suspeita ou tida como ligada à PIDE. E alertava-se aos circunstantes: "Caluda, ele é espião!" Ou então: "Cuidado, que ele é informador da PIDE!" Essas pessoas eram encaradas com um misto de receio e desprezo, evitando-se, por isso, contactos com as mesmas.
Tinha talvez os meus quinze anos quando, numa dessas conversas, um dos adultos, o Honorato, me falou, ao ouvido, da Rádio Libertação, onde se podia saber tudo sobre Cabral e a Luta. Curioso, pergunto: "Que tipo de Luta"? Então, de modo confuso, fiquei a saber da existência de uma Luta de Libertação nas matas da Guiné, dos combatentes, da luta clandestina em Cabo Verde, de alguns presos políticos. Foi ainda através do Honorato que, mais tarde, vim a saber que um conhecido filho de São Domingos, da Ilha de Santiago, donde sou natural, era um preso político: "Olha, o Filinto foi preso porque fazia luta clandestina!"
Bem, a partir dessas conversas, a curiosidade, aliada à cautela, leva-me a procurar um aparelho de rádio, que obtive por empréstimo do vizinho Tchontcha, pois que em casa não havia ainda esse instrumento de comunicação. Pude acompanhar várias emissões da Rádio Libertação e, algumas vezes, escutei, com emoção, extractos de mensagens de Cabral dirigidas aos combatentes e ao povo da Guiné e de Cabo Verde.
Comecei a fazer uma ideia menos fantasiosa de Cabral, ainda que mais heroica e porventura mais mítica dele, e a adquirir um conceito mais acertado de Política, como uma actividade que visava o bem da nossa terra e do nosso povo, ainda que se me apresentasse, inicialmente, na sua vertente essencialmente subversiva.
Os tempos de estudante na Escola de Habilitação de Professores (EHP), na Variante, foram frutíferos em termos de aprendizagem de rudimentos da política, não propriamente através da leitura de livros, mas de conversas informais entre estudantes, alguns dos quais estavam sempre a par de notícias mais ou menos frescas sobre a luta de libertação nacional, Cabral, presos políticos, informadores da PIDE (alguns dos quais professores da escola), etc.

E, assim, quando andava no quarto ano da Escola da Variante, eu era, convicta e secretamente, um "simpatizante" de Cabral, razão por que foi com enorme tristeza, mas também com incredibilidade, que soube da notícia do seu assassinato. Na verdade, acabei ficando com a secreta esperança de que Cabral não morrera, sobretudo quando um dia um colega me deu a conhecer um panfleto em que se podia ler "Kabral ka Mori", expressão que também vim a ouvir de uma ou outra emissão da Rádio Libertação, que, entretanto, deixara de ouvir com a frequência habitual desde o dia em que certo comerciante de São Domingos, com um ar muito sério, foi falar com a minha mãe, alertando-a de que eu tinha de tomar cuidado, pois suspeitava-se de que ouvia as emissões dessa "rádio que fala contra a Nação"!

Enquanto melhor aluno da EHP, eu tinha o direito de discursar na cerimónia solene da investidura como professor diplomado, mas declinei o convite, justificando-me com o facto de que não tinha tempo para preparar o discurso, já que tinha de preparar aulas (na verdade, tendo sido dos primeiros a concluir o curso, fui, logo a seguir, indigitado para substituir uma das minhas professoras, que leccionava uma quarta classe em São Domingos), mas foi um pretexto que arranjei a fim de não ser obrigado a fazer um discurso de louvor à Pátria portuguesa!...
Não obstante, juntamente com outros estudantes cabo-verdianos, fui premiado, após o curso, com uma visita a Portugal, para onde convergiram estudantes de outras províncias ultramarinas. O convívio com estudantes portugueses e das colónias foi excelente, tendo-me marcado o contacto com um deles, creio que de Timor, que não conseguia esconder a sua condição de anti-colonialista.

Soube mais tarde que, apesar de ser uma pessoa discreta, as minhas atitudes enquanto estudante nada subserviente, os meus contactos com pessoas consideradas "pouco recomendáveis" (em Cabo Verde e em Portugal) tinham-me referenciado como alguém que deveria ser mantido sob "observação". Daí que, como me alertou o próprio colega indigitado para me "seguir", fui nomeado para trabalhar na Brava como professor, director da Escola Central Sena Barcelos e delegado escolar, não tanto como prémio, mas também como medida de prevenção. O professor incumbido de "informar" a PIDE a meu respeito era, porém, um grande amigo, pelo que me alertou, em confidência, no sentido de tomar as devidas cautelas, nomeadamente com certas autoridades da ilha.

Isso não impediu que eu fosse alvo de um inquérito, de que saí ilibado de qualquer infracção, antes elogiado, por ter injustificado as faltas dadas por alguns professores que, sem minha autorização, faltaram a aulas para participarem num acto de homenagem a uma figura destacada do colonial-fascismo português, para que foram convidados pelo Administrador do concelho, o qual se "esqueceu", no entanto, de me convidar para o acto ou, ao menos, de pedir-me que, enquanto Delegado Escolar, concedesse dispensa de serviço a tais professores.
Segundo soube, o Chefão da ilha ficou desgostoso com o desfecho da queixa, por ele apresentada, prometendo que me iria "apanhar um dia desses". Só que esse dia não apareceria jamais, pois que, menos de dois meses depois, acontece o 25 de Abril, a chamada Revolução dos Cravos, em Portugal, que inaugura uma etapa nova na minha relação com a Política, marcada por uma intensa militância política e cívica em prol da Independência, do Progresso e da Democracia em Cabo Verde.

Sem ter, jamais, abandonado a minha grande paixão, que foi e é a Educação, estive, assim, durante cerca de doze anos, na chamada política activa, desempenhando diversos cargos e responsabilidades, nomeadamente enquanto dirigente partidário a nível nacional e regional, como deputado da Nação e, em particular, na luta pela instauração da democracia pluripartidária em Cabo Verde. Fi-lo com elevado sentido da ética e da moral, com patriotismo, espírito de justiça e de solidariedade humana, mantendo-me igual a mim próprio...
Escrevo este apontamento a 13 de Janeiro de 2009, decretado Dia da Liberdade e da Democracia em Cabo Verde. Este dia encontra-me arredado da política activa, o que acontece desde há mais de 15 anos, por ter chegado à conclusão de que, apesar de apreciar a boa Política, enquanto ciência e arte de governar, não podia sentir-me realizado com a maneira de fazer política inaugurada com o despontar da chamada "II República", em 1990/11: a lógica da "destruição" e perseguição do adversário político; a tentativa ou a prática mais ou menos subtil de marginalização das pessoas em função da sua cor política; a atitude de considerar que é mau ou bom tudo o que vem da formação política adversária são "racionalidades" que não se encaixavam e continuam a não encaixar-se na minha maneira de ser e estar na vida. Daí que continue a trabalhar por Cabo Verde fora do quadro partidário, dando, porém, o meu melhor, enquanto patriota e profissional, para o progresso do povo das ilhas, que continua a querer um poema (digo, uma política) diferente para o povo das ilhas!
Bartolomeu Varela

domingo, 18 de novembro de 2007

O calcanhar de Aquiles do meu ensino primário!

A escola onde estudei o ensino primário
Ao entrar na escola primária oficial com 7 anos de idade, tinha eu já feito um percurso de dois anos de ensino particular, em S. Domingos, sob os cuidados da conhecida Mamã Mendonça, uma senhora de mil ofícios, dos quais não era seguramente menos importante o de professora particular, função que desempenhava, sem ânimo de lucro, com muito zelo e competência, empregando, com mestria, os métodos tradicionais de ensino da leitura, escrita e cálculo e, ainda que com moderação, os famosos castigos em que a palmatória, a comprida vara de marmeleiro e as orelhas de burro faziam parte do arsenal de recursos didáctico-pedagógicos…

Seria muito fácil, agora, criticar tais métodos, à luz dos hodiernos paradigmas educacionais. Mas uma coisa é certa: tais métodos resultavam! Em apenas dois anos, eu sabia ler correntemente, escrever com bela caligrafia e praticamente sem erros e calcular nas quatro operações!... Graças a esse ensino particular, os meus primeiros anos de escola primária foram praticamente um passeio!...

Só na 4ª classe é que tive de me empenhar a sério, pois que os exames de fim do ensino primário não eram propriamente uma brincadeira, mas, mais uma vez, tive sorte: se as aulas da escola oficial não eram propriamente muito proveitosas, devido às limitações do professor, já as explicações diárias do Mestre Ano Novo, homem de mil ofícios que, além da música, que o imortalizou, do teatro e da dança, que cultivou com sucesso, evidenciava as suas qualidades como professor particular.

Graças a Ano Novo, acabei sendo um bom aluno em Língua Portuguesa (Leitura e Interpretação, Gramática, Ortografia, Redacção), Aritmética e Geometria, Geografia, Ciências Naturais, História... Mas o meu Calcanhar de Aquiles era o Desenho. Não tendo esta disciplina sido valorizada pelo meu professor e nem incluída nas aulas particulares do Ano Novo (este que era, todavia, uma pessoa com conhecidas habilidades em desenho e pintura), acabei sendo um aluno sofrível neste particular.
Eu e o meu caçula, aos 5 anos (Out.2006)

Na verdade, se no exame da 4ª classe, realizado na Escola Grande da Praia, em 1966, sob os auspícios do 4º júri, a maioria das classificações obtidas foi de Muito Bom e uma delas de Bom, havia lá estampado, na prova, para minha vergonha, um Medíocre em Desenho. Confesso que até hoje sinto vergonha desse Medíocre!

E quando o digo, agora, ao meu filho, de seis anos, que já desenha como um “especialista”, ele se vangloria da sua superioridade: “sei desenhar mais do que tu!”. E é verdade: mau grado as críticas que podem fazer-se à qualidade do ensino, a escola primária de hoje tem os seus pontos fortes!...

Chuva engraçada

Em Cabo Verde, a falta e a irregularidade das chuvas são abundantemente descritas em páginas da História do arquipélago, que igualmente dão ...