Mensagens

A mostrar mensagens de 2024

Chuva engraçada

Imagem
Em Cabo Verde, a falta e a irregularidade das chuvas são abundantemente descritas em páginas da História do arquipélago, que igualmente dão conta das crises agrícolas e mortandades decorrentes desse fenômeno. Mas quando chove razoavelmente, o arquipélago sofre uma grande metamorfose, não só na paisagem, que se torna verdejante, mas também na economia e na vida dos cabo-verdianos. Daí que a queda da Chuva seja, em geral, tão alegremente recebida pelos cabo-verdianos, a ponto de a considerarem "Chuva Amiga", como escreveu Amilcar Cabral. Acontece que a queda irregular das chuvas ocorre não só em termos de variação no tempo mas também no que tange à precipitação no espaço. Neste último quesito, a desigual distribuição espacial da Chuva  apresenta, por vezes, contornos engraçados.   Exemplifico com um caso ocorrido comigo há muitos anos. Certa vez, à porta da Farmácia Africana, com medicamentos recém-comprados na mão, esperava eu que deixasse de chover, a fim de passar para o...

Eu e a Igreja Católica de São Domingos

Imagem
Na sequência do artigo "Eu e a Religião", publicado nesta página, há nove anos, retomo aqui algumas memórias relacionadas com a minha vivência cristã, com foco no meu relacionamento com a Igreja. Nasci, cresci e me fiz homem em simbiose com a Igreja Católica de São Nicolau Tolentino, sita em Várzea da Igreja, São Domingos. Não me refiro à nova e imponente Igreja de São Domingos, recentemente inaugurada, mas à antiga e também linda igreja da minha infância e juventude.       Antiga Igreja Católica de São Domingos Aos 5 dias de idade, fui levado à Igreja para ser batizado na fé cristã, iniciando-se, assim, precocemente, o processo da minha formação e desenvolvimento como cristão. Obviamente, não podia estar ciente da opção feita pelos meus pais, que, entretanto, se apressaram em tornar-me cristão, a fim de evitar que eu morresse “mouro”, pois, como me contaram, logo após o nascimento, fiquei doente e receavam um desenlace fatal, apesar das constantes preces e do recurso às ...

O Namoro na minha Infância

Imagem
Criado e educado, como muitos da minha geração, em ambiente familiar e social marcado por sólidos princípios da moral  e religião católicas,  de acordo os quais a relação sexual antes do matrimónio constituía um pecado grave, o namoro casto não era proibido, mas tolerado ou apoiado pelos padres e catequistas, pelos pais e pelos mais velhos. Por namoro casto entendia-se uma relação de afeto em que rapazes e moças não deviam ter relações sexuais antes do casamento, pelo que, em regra, devia acontecer sem demasiada intimidade física.  Assim, o namoro entre miúdos iniciava-se com troca de cartas, bilhetes, flores, pequenas prendas, olhares ternos ou piscar de olhos, neste caso, sobretudo por moços mais afoitos. Entre adolescentes e jovens, admitia-se alguma aproximação física entre os namorados, mas o namoro teria de acontecer com o necessário pudor e respeito para com terceiros, admitindo-se, entretanto, inocentes e púdicas trocas de carinho, como passear lado a lado, furtar...

Uma história de Nota 20 em Português

Imagem
Na Escola de Habilitação de Professores de Cabo Verde, em Variante, São Domingos, a professora D. Catarina Cunha, devolve aos alunos-mestres, devidamente corrigidas, as provas de Língua Portuguesa que aqueles tinham realizado na semana transacta. Chegada a vez do aluno Goiaba (nome fictício), este lança um olhar para o canto superior da sua prova. Com o semblante de incontida alegria, pula de contente e, como se não bastasse, dirigindo-se para a turma, que o observa, com curiosidade, grita: -Dja-m rabenta ku Katrina!!! (Tradução: Já arrebentei com a Catarina). Olhando para mim (o melhor aluno da turma), pergunta: -"6", kuantu bu tira? (Tradução: quanto tiveste?) Cabe esclarecer que o meu número de aluno era "6" e, com frequência, era pelos respetivos números que os alunos-mestres se dirigiam uns aos outros. -18, respondo e, curioso, indago: I bo? (Tradução: E tu?) -20! Mi é mais bon ki bo! (Tradução: Eu sou melhor que tu!). Nisto, o chefe da turma, Penedo (nome fict...