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A mostrar mensagens de 2009

O meu primeiro dia de aulas na Escola da Variante

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Fiz parte do primeiro contingente de mais de oitenta alunos, repartidos por ambos os sexos, que, após aprovação numas concorridíssimas provas de aptidão, inauguraram, no ano lectivo 1969/70, a Escola de Habilitação de Professores, sita em Variante, São Domingos, tendo por Director o professor António Ribeiro da Cunha, que se revelaria famoso, quer pela sua sólida e vasta formação (“Ele sabe tudo”! – dizíamos, apreciando a forma como ele versava connosco os mais diversos assuntos, com mestria e à-vontade e, sobretudo, com uma grande capacidade comunicativa), quer pelo seu exacerbado e implacável autoritarismo (“O menino fica em causa por quinze dias”! – dizia ele, calmamente, a um dado aluno que, por exemplo, retirasse do bananal da escola uma banana madura para saciar a fome). O autor, ladeado de alguns dos antigos colegas da EHP Mas, antes de entrarmos na Escola da Variante, eu e os meus colegas desconhecíamos estas características do Director Cunha, sobretudo a segunda. Foi...

Os pecados da minha meninice

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- Quem foi que comeu todo o açúcar que tinha guardado aqui? – pergunta minha mãe Eduarda, a quem eu chamava Djodjô, contrariamente à minha irmã, a Branca, que lhe chamava mamã -, enquanto, com ar sério, aponta para a caneca de litro vazia. - Eu não, mamã! – responde, rapidamente, minha irmãzinha, com firmeza. - Eu também, não, Djodjo! – respondo eu, procurando parecer convincente. - Olhem que é feio e é pecado mentir, além de que constitui outro pecado apossar-nos de coisa que não é nossa! Isso é furtar, é pecado! Deus e o diabo - o conforto de que Ele é que vence! A esta palavra, que me fazia pensar num Deus descontente, a contrastar com um Diabo que esfregava as mãos de contente face à expectativa de encontrar companhia no fogo do Inferno, para onde ia condenado quem vivesse e morresse em pecado, eu não tive outro remédio senão confessar, procurando não chorar antes do tempo: - Fui eu, Djodjô! Desculpa-me! - Bem, desta vez passa, mas não volta a acontecer, certo? Anuí...

Eu, deputado!

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De 1981 a 1990, fui deputado ao parlamento cabo-verdiano, então denominado Assembleia Nacional Popular, o qual, a partir de 1991, ficou amputado da “perna”, digo, do termo Popular, passando a chamar-se, simplesmente, Assembleia Nacional. Dei o benefício da dúvida aos parlamentares que tomaram essa decisão: efectivamente, o termo Nacional (por abarcar todos quantos assumem a identidade cabo-verdiana, nas suas diversas dimensões (psicossociológica, antropológica, cultural, etc.) já abarca o Popular, e este, ainda que associado ao Nacional, pode afigurar-se restritivo, parecendo alinhar com a polémica concepção de democracia nacional revolucionária, presente nos discursos, que não na prática consequente, de então. Desempenhei as funções de deputado num período de intensa vivência cívica, porventura mais do que de actividade político-partidária, apesar de, nesse período, ter desempenhado cargos dirigentes no partido que detinha a condição jurídico-constitucional de força política diri...

Eu e a Política

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A minha relação com a Política foi inicialmente caracterizada pelo receio e um certo medo. Ainda garoto, com os meus seis anos, ouvia falar de Políticos como sendo de gente conflituosa, de tal sorte que apelidar uma pessoa de político era quase o mesmo que insultá-la. Amílcar Cabral Quando tinha cerca de doze anos, em círculos de amigos da minha idade e, mesmo, de adultos, ouvi falar de Amílcar Cabral, através de uma série de histórias lendárias, em que ele, classificado de político subversivo e "contra a Nação" (leia-se contra a Pátria portuguesa), conseguia, alegadamente, ludibriar a polícia secreta portuguesa (a PIDE), saindo, magicamente, de alegadas ciladas que lhe montavam quando aparecia em vários pontos da Ilha de Santiago, vindo da Guiné, para visitar parentes, combatentes... Nessas lendas, que na altura nos pareciam ser histórias verídicas e incontestáveis, Cabral aparecia para nós como um herói mágico que tinha a arte de enganar os "tugas". E...