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O Namoro na minha Infância

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Criado e educado, como muitos da minha geração, em ambiente familiar e social marcado por sólidos princípios da moral  e religião católicas,  de acordo os quais a relação sexual antes do matrimónio constituía um pecado grave, o namoro casto não era proibido, mas tolerado ou apoiado pelos padres e catequistas, pelos pais e pelos mais velhos. Por namoro casto entendia-se uma relação de afeto em que rapazes e moças não deviam ter relações sexuais antes do casamento, pelo que, em regra, devia acontecer sem demasiada intimidade física.  Assim, o namoro entre miúdos iniciava-se com troca de cartas, bilhetes, flores, pequenas prendas, olhares ternos ou piscar de olhos, neste caso, sobretudo por moços mais afoitos. Entre adolescentes e jovens, admitia-se alguma aproximação física entre os namorados, mas o namoro teria de acontecer com o necessário pudor e respeito para com terceiros, admitindo-se, entretanto, inocentes e púdicas trocas de carinho, como passear lado a lado, furtar...

Uma história de Nota 20 em Português

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Na Escola de Habilitação de Professores de Cabo Verde, em Variante, São Domingos, a professora D. Catarina Cunha, devolve aos alunos-mestres, devidamente corrigidas, as provas de Língua Portuguesa que aqueles tinham realizado na semana transacta. Chegada a vez do aluno Goiaba (nome fictício), este lança um olhar para o canto superior da sua prova. Com o semblante de incontida alegria, pula de contente e, como se não bastasse, dirigindo-se para a turma, que o observa, com curiosidade, grita: -Dja-m rabenta ku Katrina!!! (Tradução: Já arrebentei com a Catarina). Olhando para mim (o melhor aluno da turma), pergunta: -"6", kuantu bu tira? (Tradução: quanto tiveste?) Cabe esclarecer que o meu número de aluno era "6" e, com frequência, era pelos respetivos números que os alunos-mestres se dirigiam uns aos outros. -18, respondo e, curioso, indago: I bo? (Tradução: E tu?) -20! Mi é mais bon ki bo! (Tradução: Eu sou melhor que tu!). Nisto, o chefe da turma, Penedo (nome fict...

Eu e a música!

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Nasci com a música nos ouvidos! Não me refiro apenas às canções de ninar, tradicionais ou improvisadas, com que a minha mãe me mimoseava, e que eu, já rapaz de cinco ou seis anos de idade, ainda dela reclamava, pois me faziam tão bem! Refiro-me também à música que provinha da natureza, com o cantar do galo, o cacarejar das galinhas, o piar dos pintainhos, o chilrear dos pássaros, o zurrar dos burros, o relinchar dos cavalos, etc. Bem, nem todos os sons que vinham da natureza se me apresentavam como música: nos primeiros anos, tinha eu um pavor enorme das trovoadas que pareciam ser vozes de coléricos deuses e cujos efeitos tenebrosos procurávamos evitar, lá em casa, rezando à “Santa Bárbara, a generosa”, ao Deus Todo-Poderoso, ao “Santo António, o milagreiro”, e a outros santos, tal como nos ensinava a Djodjó, minha mãe! Mas, com o tempo, habituei-me a esses estrondos que vinham do céu, os quais passavam a soar aos meus ouvidos como primorosos fragmentos musicais. Daí até imitá...

Eu e a Religião!

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Minha infância e adolescência foram profundamente influenciadas pelos valores da educação religiosa, aprendidos e postos em prática no ambiente familiar, na catequese, nas missas e nas diversas estruturas e da Igreja Católica, ao tempo existentes, sobretudo em São Domingos, Ilha de Santiago, meu torrão natal. Tendo aprendido na família os rudimentos da religião e as primeiras orações, desde que me lembre, seguia, invariavelmente, o mesmo ritual que consistia em iniciar o dia com o "sinal da cruz" e uma breve oração, a que seguiam, à laia de cumprimentos, os pedidos de bênção aos meus pais, que mos concediam piedosamente: - Deus te dê juízo e te acompanhe! - dizia, por vezes, o papá; - Deus te  abençoe e te guarde!  - dizia, outras vezes, a Djodjó, minha mãe. À mesa, antes de iniciarmos as refeições, era também hábito, lá em casa, uma breve prece, em que o pai ou a mãe agradecia a Deus e Lhe pedia que abençoas...

O meu primeiro dia de aulas na Escola da Variante

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Fiz parte do primeiro contingente de mais de oitenta alunos, repartidos por ambos os sexos, que, após aprovação numas concorridíssimas provas de aptidão, inauguraram, no ano lectivo 1969/70, a Escola de Habilitação de Professores, sita em Variante, São Domingos, tendo por Director o professor António Ribeiro da Cunha, que se revelaria famoso, quer pela sua sólida e vasta formação (“Ele sabe tudo”! – dizíamos, apreciando a forma como ele versava connosco os mais diversos assuntos, com mestria e à-vontade e, sobretudo, com uma grande capacidade comunicativa), quer pelo seu exacerbado e implacável autoritarismo (“O menino fica em causa por quinze dias”! – dizia ele, calmamente, a um dado aluno que, por exemplo, retirasse do bananal da escola uma banana madura para saciar a fome). O autor, ladeado de alguns dos antigos colegas da EHP Mas, antes de entrarmos na Escola da Variante, eu e os meus colegas desconhecíamos estas características do Director Cunha, sobretudo a segunda. Foi...

Os pecados da minha meninice

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- Quem foi que comeu todo o açúcar que tinha guardado aqui? – pergunta minha mãe Eduarda, a quem eu chamava Djodjô, contrariamente à minha irmã, a Branca, que lhe chamava mamã -, enquanto, com ar sério, aponta para a caneca de litro vazia. - Eu não, mamã! – responde, rapidamente, minha irmãzinha, com firmeza. - Eu também, não, Djodjo! – respondo eu, procurando parecer convincente. - Olhem que é feio e é pecado mentir, além de que constitui outro pecado apossar-nos de coisa que não é nossa! Isso é furtar, é pecado! Deus e o diabo - o conforto de que Ele é que vence! A esta palavra, que me fazia pensar num Deus descontente, a contrastar com um Diabo que esfregava as mãos de contente face à expectativa de encontrar companhia no fogo do Inferno, para onde ia condenado quem vivesse e morresse em pecado, eu não tive outro remédio senão confessar, procurando não chorar antes do tempo: - Fui eu, Djodjô! Desculpa-me! - Bem, desta vez passa, mas não volta a acontecer, certo? Anuí...

Eu, deputado!

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De 1981 a 1990, fui deputado ao parlamento cabo-verdiano, então denominado Assembleia Nacional Popular, o qual, a partir de 1991, ficou amputado da “perna”, digo, do termo Popular, passando a chamar-se, simplesmente, Assembleia Nacional. Dei o benefício da dúvida aos parlamentares que tomaram essa decisão: efectivamente, o termo Nacional (por abarcar todos quantos assumem a identidade cabo-verdiana, nas suas diversas dimensões (psicossociológica, antropológica, cultural, etc.) já abarca o Popular, e este, ainda que associado ao Nacional, pode afigurar-se restritivo, parecendo alinhar com a polémica concepção de democracia nacional revolucionária, presente nos discursos, que não na prática consequente, de então. Desempenhei as funções de deputado num período de intensa vivência cívica, porventura mais do que de actividade político-partidária, apesar de, nesse período, ter desempenhado cargos dirigentes no partido que detinha a condição jurídico-constitucional de força política diri...