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Chuva engraçada

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Em Cabo Verde, a falta e a irregularidade das chuvas são abundantemente descritas em páginas da História do arquipélago, que igualmente dão conta das crises agrícolas e mortandades decorrentes desse fenômeno. Mas quando chove razoavelmente, o arquipélago sofre uma grande metamorfose, não só na paisagem, que se torna verdejante, mas também na economia e na vida dos cabo-verdianos. Daí que a queda da Chuva seja, em geral, tão alegremente recebida pelos cabo-verdianos, a ponto de a considerarem "Chuva Amiga", como escreveu Amilcar Cabral. Acontece que a queda irregular das chuvas ocorre não só em termos de variação no tempo mas também no que tange à precipitação no espaço. Neste último quesito, a desigual distribuição espacial da Chuva  apresenta, por vezes, contornos engraçados.   Exemplifico com um caso ocorrido comigo há muitos anos. Certa vez, à porta da Farmácia Africana, com medicamentos recém-comprados na mão, esperava eu que deixasse de chover, a fim de passar para o...

Eu e a Igreja Católica de São Domingos

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Na sequência do artigo "Eu e a Religião", publicado nesta página, há nove anos, retomo aqui algumas memórias relacionadas com a minha vivência cristã, com foco no meu relacionamento com a Igreja. Nasci, cresci e me fiz homem em simbiose com a Igreja Católica de São Nicolau Tolentino, sita em Várzea da Igreja, São Domingos. Não me refiro à nova e imponente Igreja de São Domingos, recentemente inaugurada, mas à antiga e também linda igreja da minha infância e juventude.       Antiga Igreja Católica de São Domingos Aos 5 dias de idade, fui levado à Igreja para ser batizado na fé cristã, iniciando-se, assim, precocemente, o processo da minha formação e desenvolvimento como cristão. Obviamente, não podia estar ciente da opção feita pelos meus pais, que, entretanto, se apressaram em tornar-me cristão, a fim de evitar que eu morresse “mouro”, pois, como me contaram, logo após o nascimento, fiquei doente e receavam um desenlace fatal, apesar das constantes preces e do recurso às ...

O Namoro na minha Infância

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Criado e educado, como muitos da minha geração, em ambiente familiar e social marcado por sólidos princípios da moral  e religião católicas,  de acordo os quais a relação sexual antes do matrimónio constituía um pecado grave, o namoro casto não era proibido, mas tolerado ou apoiado pelos padres e catequistas, pelos pais e pelos mais velhos. Por namoro casto entendia-se uma relação de afeto em que rapazes e moças não deviam ter relações sexuais antes do casamento, pelo que, em regra, devia acontecer sem demasiada intimidade física.  Assim, o namoro entre miúdos iniciava-se com troca de cartas, bilhetes, flores, pequenas prendas, olhares ternos ou piscar de olhos, neste caso, sobretudo por moços mais afoitos. Entre adolescentes e jovens, admitia-se alguma aproximação física entre os namorados, mas o namoro teria de acontecer com o necessário pudor e respeito para com terceiros, admitindo-se, entretanto, inocentes e púdicas trocas de carinho, como passear lado a lado, furtar...

Uma história de Nota 20 em Português

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Na Escola de Habilitação de Professores de Cabo Verde, em Variante, São Domingos, a professora D. Catarina Cunha, devolve aos alunos-mestres, devidamente corrigidas, as provas de Língua Portuguesa que aqueles tinham realizado na semana transacta. Chegada a vez do aluno Goiaba (nome fictício), este lança um olhar para o canto superior da sua prova. Com o semblante de incontida alegria, pula de contente e, como se não bastasse, dirigindo-se para a turma, que o observa, com curiosidade, grita: -Dja-m rabenta ku Katrina!!! (Tradução: Já arrebentei com a Catarina). Olhando para mim (o melhor aluno da turma), pergunta: -"6", kuantu bu tira? (Tradução: quanto tiveste?) Cabe esclarecer que o meu número de aluno era "6" e, com frequência, era pelos respetivos números que os alunos-mestres se dirigiam uns aos outros. -18, respondo e, curioso, indago: I bo? (Tradução: E tu?) -20! Mi é mais bon ki bo! (Tradução: Eu sou melhor que tu!). Nisto, o chefe da turma, Penedo (nome fict...

Eu e a música!

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Nasci com a música nos ouvidos! Não me refiro apenas às canções de ninar, tradicionais ou improvisadas, com que a minha mãe me mimoseava, e que eu, já rapaz de cinco ou seis anos de idade, ainda dela reclamava, pois me faziam tão bem! Refiro-me também à música que provinha da natureza, com o cantar do galo, o cacarejar das galinhas, o piar dos pintainhos, o chilrear dos pássaros, o zurrar dos burros, o relinchar dos cavalos, etc. Bem, nem todos os sons que vinham da natureza se me apresentavam como música: nos primeiros anos, tinha eu um pavor enorme das trovoadas que pareciam ser vozes de coléricos deuses e cujos efeitos tenebrosos procurávamos evitar, lá em casa, rezando à “Santa Bárbara, a generosa”, ao Deus Todo-Poderoso, ao “Santo António, o milagreiro”, e a outros santos, tal como nos ensinava a Djodjó, minha mãe! Mas, com o tempo, habituei-me a esses estrondos que vinham do céu, os quais passavam a soar aos meus ouvidos como primorosos fragmentos musicais. Daí até imitá...

Eu e a Religião!

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Minha infância e adolescência foram profundamente influenciadas pelos valores da educação religiosa, aprendidos e postos em prática no ambiente familiar, na catequese, nas missas e nas diversas estruturas e da Igreja Católica, ao tempo existentes, sobretudo em São Domingos, Ilha de Santiago, meu torrão natal. Tendo aprendido na família os rudimentos da religião e as primeiras orações, desde que me lembre, seguia, invariavelmente, o mesmo ritual que consistia em iniciar o dia com o "sinal da cruz" e uma breve oração, a que seguiam, à laia de cumprimentos, os pedidos de bênção aos meus pais, que mos concediam piedosamente: - Deus te dê juízo e te acompanhe! - dizia, por vezes, o papá; - Deus te  abençoe e te guarde!  - dizia, outras vezes, a Djodjó, minha mãe. À mesa, antes de iniciarmos as refeições, era também hábito, lá em casa, uma breve prece, em que o pai ou a mãe agradecia a Deus e Lhe pedia que abençoas...

O meu primeiro dia de aulas na Escola da Variante

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Fiz parte do primeiro contingente de mais de oitenta alunos, repartidos por ambos os sexos, que, após aprovação numas concorridíssimas provas de aptidão, inauguraram, no ano lectivo 1969/70, a Escola de Habilitação de Professores, sita em Variante, São Domingos, tendo por Director o professor António Ribeiro da Cunha, que se revelaria famoso, quer pela sua sólida e vasta formação (“Ele sabe tudo”! – dizíamos, apreciando a forma como ele versava connosco os mais diversos assuntos, com mestria e à-vontade e, sobretudo, com uma grande capacidade comunicativa), quer pelo seu exacerbado e implacável autoritarismo (“O menino fica em causa por quinze dias”! – dizia ele, calmamente, a um dado aluno que, por exemplo, retirasse do bananal da escola uma banana madura para saciar a fome). O autor, ladeado de alguns dos antigos colegas da EHP Mas, antes de entrarmos na Escola da Variante, eu e os meus colegas desconhecíamos estas características do Director Cunha, sobretudo a segunda. Foi...