Mamã Mendonça, minha mestre do ensino primário

Aquando da minha frequência da escola primeira, o ingresso no ensino primário era permitido a quem tivesse 7 anos de idade completos ou a completar até 31 de outubro do ano letivo.

Assim, em junho ou julho, o meu pai apresentou-se ao professor responsável para efetuar a minha matrícula, mas o mestre argumentou que eu não tinha completado 7 anos e só entraria no ano seguinte. Acontece que o responsável pela minha matrícula estava equivocado, pois, embora só completasse 7 anos a 24 de agosto, eu cumpria o requisito de idade de ingresso.

Certo é que, devido a esse equívoco, acabei por iniciar os meus estudos primários na escola oficial, então denominada Posto Escolar de São Domingos, com oito anos de idade.

No entanto, eu não era propriamente um “iniciado” nos estudos primários, pois, desde os meus cinco anos e até ao ingresso no ensino oficial, eu já tinha feito um invejável percurso no ensino primário, com a frequência assídua da “escola particular” ou de “explicação” de Mamá Mendonça, ilustre costureira e conhecida parteira tradicional que interrompia os seus afazeres com a espinhosa missão de educadora particular, incumbindo-se de ensinar dezenas de crianças que lhe eram confiadas nos domínios da iniciação à leitura, à escrita e ao cálculo

Com Mamá Mendonça aprendi a ler a Cartilha da primeira à última folha, inicialmente com algumas dificuldades na soletração e na leitura das palavras e frases do livrinho, mas, depois, com a fluência que era elogiada pela mestre. De igual modo, memorizei toda a tabuada, inicialmente com alguns deslizes, e, a seguir, com desenvoltura, e aprendi a fazer contas relativamente complexas nas quatro operações aritméticas, quase sempre sem cometer erros quando me apresentava perante a atenta e rigorosa mestre.

É certo que, inicialmente, cheguei a experimentar alguns puxões de orelha – porém, muito menos que outros coleguinhas, useiros e vezeiros na arte de cometer erros e na capacidade de arcar estoicamente com as penalizações, que chegavam a ter diferentes graduações: advertências severas; puxões de orelhas e tapas; palmatoadas e, por vezes, colocação na cabeça do infeliz das temidas “orelhas de burro”.

Certo é que os meninos acabavam por dominar as aprendizagens iniciais com desenvoltura e automatismo, “fazendo bonito”, o que enchia de orgulho Mamá Mendonça.

Esta ensinava pro bono, sem cobrar centavo algum pelas explicações. Com alguma relutância, aceitava algumas prendas que mães de alguns dos seus pupilos lhe enviavam. Por seu turno, a mestre era generosa para com os seus pupilos aos quais oferecia, frequentemente, bolos ou doces, que retirava dos grandes frascos de vidro onde eram expostos à venda.

Por mor das aprendizagens feitas sob os cuidados da mestre Mamá Mendonça, os meus três primeiros anos do ensino primário oficial foram uma espécie de passeio. Saía-me muito bem nas lições e, a partir da segunda classe, era, amiúde, aproveitado como uma espécie de “monitor” ou “adjunto” do professor no ensinamento de outros colegas.

Já se passaram várias décadas, mas a memória de Mamá Mendonça permanece em mim (e certamente em muitos) de forma marcante, bem viva. Esta ilustre figura de Várzea da Igreja e de São Domingos, que, ao tempo, era viúva e tinha a responsabilidade de cuidar de si própria e da sua família, não regateava os pedidos que lhe eram feitos, quer para acudir no parto, quer, em particular, na arte do ensino, ajudando a dar à luz e dar luzes a muitos sandominguenses.

Bem-haja, pois, Mamá Mendonça!

Bartolomeu L. Varela

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